quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Debruçada na Janela



 
Era uma pequena cidade do interior, daquelas que tinha somente uma rua com calçamento e as demais de terra batida. Ali funcionava o comércio, o correio e o ponto do ônibus que circulava uma vez por semana para a cidade grande.


Essa rua desembocava em uma pracinha defronte a igreja, onde havia um casarão pertencente a um comerciante cuja filha era muito bonita e por isso não a deixava sair de casa, ficava na janela assistindo a tudo o que se passava.


Mantinha esse mirante sempre enfeitado na esperança de que algum rapaz viesse cortejá-la.
 

Um pouco antes de o dia clarear, a mocinha já estava toda arrumada, regando as flores que ficavam na soleira e ali recebia cumprimentos e cordiais saudações dos moradores que iam e vinham.


Nesse mundo que lhe foi imposto, viu toda sua vida passar e foi escrevendo as suas ansiedades e aspirações em uma caderneta, que foi encontrada entre seus pertences, depois que partiu para outra dimensão.

  O POEMA DE UMA VIDA SOLITÁRIA
A menina debruçou na janela...

Com a ajuda da cadeira da sala.

Viu o mundo desfilar!

Brincou de boneca papai e mamãe.


A menina-moça debruçou na janela...

Viu o mundo girar.

Aquarela colorida!

Vestiu o primeiro “soutien”, sentiu-se mulher.


A mocinha debruçou na janela...

Viu os sonhos dos adolescentes.

Quinze anos...


Primeiro baile, um beijo na face!

Voou pelas alturas!
 

Dançou a valsa do Imperador!

Percorreu os bosques de Viena!

Navegou no Danúbio Azul!



A jovem debruçou na janela...

Viu o primeiro amor.

Desfraldou o seu segredo.

Um fruto do príncipe encantado!
 

A mulher debruçou na janela...

Viu a juventude ficar no passado.

Um filho habitou o seu mundo.

As fantasias terminaram, sentiu-se uma plebéia.


A senhora debruçou na janela...

Viu o mundo desabar.

Conversou com Jesus.

Confortou-se na religião.
 

Da cadeira de balanço da sala de estar.

Repassou toda sua vida.

Viu a janela se fechar.

Serraram-se as cortinas.

E a sua luz se apagou.

Acesse http://www.sergrasan.com/toninhovendraminislides/ e poderá ver em formato PPS, com fundo musical.
 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sino Peregrino



Escuto bem lá no fundo do vale um som que ecoa sobre o pico de uma montanha verdejante. Sua relva fina e macia abriga meu corpo nas alturas, cansado pelas andanças, uma vez que percorreu na mente lugares antes nunca caminhados.

O volume do som vem em minha direção lentamente, coloco minha cabeça entre as mãos,     conchego às orelhas e procuro verificar a direção. Percebo, então, que chega com uma sonoridade mais estridente e consigo enxergar nos caminhos tortuosos em forma de trilhas, um caprino.

Observando o seu caminhar, vejo que em seu rastro seguem outros da espécie montanhesa, aqueles que parecem ficar grudados nas inclinações das montanhas. Conforme mais se aproximavam, o som tornava-se mais alto. Observei que o da frente era de um macho líder, pois carregava uma sineta envolta no pescoço.
 
Tinha orelhas caídas, cavanhaque saliente e olhos dominadores, com os quais indicava as direções para as fêmeas que estavam mais próximas. Aquelas que ousassem ultrapassá-lo recebiam coices e mordidas: ele era o soberano.

Muito lá atrás, apareceu a figura do condutor daquele rebanho homogêneo. Era um garoto ainda, acompanhava-o um cão pastor que acomodava sempre próximas ao caprino líder, as suas fêmeas, todas em estado de lactação, o produto fabricado por aquele menino e seus pais, elaborando um queijo de ótima qualidade, vendido no vilarejo.

Indaguei o porquê aquele reprodutor tinha um sino ao redor de seu pescoço. O menino falou que era para ele saber aonde o rebanho se encontrava, para não perder a proximidade, uma vez que havia outros para olhar. Refleti sobre aquela situação, tentando entender o significado do som de um sino...

Já ouvi em diversas situações: O repicar triste no dia da morte do Papa João Paulo II, o anúncio alegre do recreio da minha escola de infância, o da algazarra do último dia do ano na cidade onde moro.
 
A reflexão que faço agora é que eles sempre dobram ou dobraram nas mais variadas situações. O segredo dos tipos de sons está no manuseio, que sempre é entregue a uma pessoa mais experimentada.
 
O badalador da catedral de São Pedro, certamente conhece muitos “toques”; já o servente da escola de antigamente anunciava a entrada, o recreio e o término, sempre com o mesmo trinar, o da Igreja matriz local, extravasava suas emoções no último dia do ano, em toques alucinados, e por aí afora.
 
Analisando o som provocado por este objeto, imaginei que, ao ver as folhas mortas caindo dos galhos das arvores, deveriam provocar também um som, como o da catedral ou uma igreja, quando acolhe para as últimas homenagens, um ser humano, que partiu para lugares por nós desconhecidos.

Mas não, é o inicio do outono, partiram os gorjeios dos pássaros que criaram seus filhotes, as formigas já se recolheram aos seus ninhos, após abastecerem com folhas verdes, garantindo o inverno futuro.

O que restou de som para nós nesse inicio de nova estação? Quem sabe, algum sino possa trinar um som diferente com suaves badaladas, que possamos nos deitar na relva molhada da manhã e banhar nossos pensamentos com imagens de muito sol e alegria.

E assim, de uma forma virtual, começo a escutar o som das folhas amareladas do final de estação, caindo no solo e, varridas pelo vento, se acomodarão em alguma cavidade do solo, iniciando a fecundação das sementes que germinarão em uma nova geração de arvores. 
 
Daí, sim, será ouvido um grande sino badalando de forma retumbante, anunciando o nascimento de novas vidas, resplandecendo e revigorando o nosso mundo, cheios de sons mágicos dessa nossa mãe natureza, que por ganância de alguns, vem sendo tão mal tratada nos últimos tempos.
 

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