quinta-feira, 30 de abril de 2015

O SEGREDO DE UMA ERA DOURADA



Existem muitos mitos e histórias folclóricas nas culturas mais antigas que falam de um ciclo de idades vinculado ao movimento dos céus.

Em um dos meus momentos de introspecção, fiquei imaginando que sempre existiu uma “era dourada” que é conhecida como um período de paz, harmonia, estabilidade e prosperidade.

Algumas crenças sustentam que essa era retornará na vida das pessoas depois que for concluído um período de bem-aventurança e progressiva decadência. Outros acreditam que retornará gradualmente como uma conseqüência natural.

Com essa filosofia, revelei minha visão em um micro-conto que descrevo a seguir:


Havia um pastor de um vilarejo situado entre montes à beira de um ribeirão que já estava com longos anos de vida.

Era muito respeitado pelos moradores e em sua oratória nas manhãs de domingo na pequenina igreja, era aclamado pelos anciões porque detinha o poder das palavras.

Em uma noite de muito frio reuniu as pessoas mais idosas ao redor de uma fogueira próxima ao local do culto religioso e profetizou aos homens descrentes uma esperança de uma vida menos sofrida.

Incentivou que tombassem a terra aproveitando as chuvas do dia anterior para conquistar uma safra de grãos mais abundante para suavizar os períodos de fome que teriam pela frente em razão das parcas chuvas naquela região.

Depois de ver o paiol da aldeia cheio, sentiu ao longo de sua caminhada na frente daquele povo, que a sua luta estava chegando ao fim e, com o passar de mais algum tempo, o seu pensamento ficou entrevado.

Ninguém mais lhe pedia os sábios conselhos, não mais lhe cabia na fronte o louro das costumeiras vitórias.

O poder passou então para outro religioso vindo de outras pradarias, e assim, assumiu como o antigo pastor, o destino daquelas pessoas.

Daquele dia em diante o dom de sua palavra ficou escondido em sua memória, esvaiu-se o seu saber, o coração fraquejou, seus pés cansados e combalidos pararam a marcha de sua vida, nunca mais uma sombra toldou o seu olhar sempre inspirado, morreu ignorado por todos, mas feliz, porque semeou o grão que nutriria a comunidade futura que um dia produziu flores e frutos maravilhosos.

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sábado, 25 de abril de 2015

O SOM DAS SOMBRAS DO PORÃO




Ouviu-se do quarto de dormir o som das doze badaladas produzidas pelo imponente relógio da família, postado na sala de jantar e estar. Soberano em todos os seus momentos, registrou muitas histórias contadas ao redor da mesa de jantar da família em seu esplendor, marcando horas felizes, naqueles jantares memoráveis, onde os assuntos do cotidiano eram debatidos pelos filhos, sempre com a mediação do patriarca e sua recatada esposa.

O antigo mecanismo ainda se fazia presente naquela noite, marcando com os seus sons matutinos e vespertinos, os passos dos personagens da casa secular, contabilizando o desencadear de suas vidas, transformando as alegres crianças em adultos que, aos poucos, foram deixando os pais refém do último filho...

Esse, nos momentos de reflexões que ali passava, com seus pensamentos furtivos, ouvia o marco dos devaneios daqueles momentos que ficaram no passado.

Olhou para a janela e observou que já era noite, começando a madrugada. O sono não chegava e a mente trabalhava incessantemente, procurando encontrar qual seria o seu caminho, o que viria pela frente. Os seus pais muitos idosos já não desciam para a sala de jantar. A governanta, que beirava a idade do casal, ainda conseguia arrastar os pés e levar o pequeno jantar para os velhinhos. Na passagem pelo seu quarto, sempre dizia que a sua comida estava no forno e que ela iria deitar-se.

Nesse ínterim, o relógio marcou uma badalada, a primeira daquela fria madrugada; o farfalhar das árvores ao redor da casa trazia pensamentos malignos. Pensou em ligar a televisão, mas lembrou-se que estava quebrada já fazia muitos anos. Tentou, então, ler o livro que estava à sua cabeceira e que não conseguia chegar ao epílogo, pela preguiça mental que embaralhava os assuntos em sua mente perturbada.

O silêncio era profundo e sepulcral. Foi quando ouviu um barulho que vinha da cozinha, passava pela imensa sala e penetrava em seu quarto. Era uma espécie de ranger de porta aberta que se lançava sobre o batente e espocava, como um estampido, em seus ouvidos.

Removeu as cobertas, calçou as chinelas e começou a descer as escadas, passando pelo relógio que pendulava sem parar, marcando aquele momento angustiante. Seria a porta batendo, seria alguém que teria se infiltrado sem que os velhos notassem presença?

Continuou a descer na ponta dos pés; chegando à cozinha, acendeu a luz e viu, para seu espanto, o velho gato da casa caminhando com dificuldade, subindo as escadas do porão. Foi até lá, mas o local estava muito escuro e não havia luz para iluminar a escada e, muito menos, o ambiente do fétido compartimento encravado no subsolo, mais parecendo um bunker, onde todas as tralhas, móveis e outros objetos não mais utilizados estavam à mercê daquela escuridão, que servia de esconderijo ao gato.

Buscou, próximo dali, um lampião de gás, cujo bujão prendia-se ao vidro. Levou-o até a cozinha e riscou um fósforo e a chama propagou; e percebeu que tinha uma pequena reserva, suficiente para uma inspeção no porão, para ver de onde vinha aquele ruído que se tornava, agora, mais acentuado.

Notou, então, que a tampa da caixa de papelão que continha velhas fotografias estava encostada à parede; ali o gato fez sua cama e, quando saía, ficava entreaberta; o vento penetrava pelo respiro na parede que vinha da rua e provocava aquele som.

Apanhou a caixa, aproximou do lampião e sentou-se em uma velha cadeira, uma vez que naquela casa tudo era velho, e começou a esmiuçar fotos antigas de quando era menino. Viu, a cada foto que passava por suas mãos, como em um passe de mágica, todo o passado de sua vida.

Olhou, com alegria, todos os personagens daquela casa ainda jovens; seu pai, que tanto idolatrava, estava sempre presente nas fotos e ele é quem organizava as posições para as fotos, quem ficava em pé, sentado ou no colo da mãe.

Nesse vai e vem de fotos, separou algumas para mostrar ao velho pai, para saber de alguns personagens que visitavam o seu lar de que já não se lembrava mais e, certamente, o patriarca faria longos comentários detalhados daquelas pessoas.

Sentiu, então, que sua sina era cuidar dos pais até o seu final e, depois, pensar em se casar para dar continuidade à família e zelar pelo sobrenome muito respeitado no local onde moravam.

Percebeu que o dia já raiava, subiu pelos degraus, chegou à cozinha, tomou um café, e falou para a governanta sobre aquelas fotos que tinha nas mãos e estavam naquela caixa de papelão e que mostraria aos velhos.


Bateu à porta do quarto e, como não respondiam, entrou com cuidado e verificou que os dois velhinhos tinham falecido naquela noite, sob o som das badaladas daquele relógio que marcou a vida e transformou aquela casa em um reduto de lembranças, onde apenas as fotografias ficaram para contar a história. 

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